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ANDERSON ANTIKIEVICZ COSTA
041 - to7thart@gmail.com 

CINEMA E JORNALISMO II
“Análise da abordagem cinematográfica do Jornalismo Literário no filme ‘A Sangue Frio’, de Richard Brooks, a partir da obra homônima de Truman Capote” – Parte II, por Anderson Antikievicz Costa e Jacidio Junior, sob orientação de Luiz Carlos Sonda. Na coluna de hoje, como adiantado, falaremos brevemente do que vem a ser o Jornalismo Literário, para posterior relação com o cinema.

Jornalismo Literário
No Brasil, alguns autores afirmam que Jornalismo Literário é o período da história do jornalismo no qual os responsáveis pelas redações, os articulistas, os cronistas e os autores de folhetins, eram escritores, o que ocorreu, principalmente, no século XIX. Para outros, o Jornalismo Literário diz respeito somente às críticas literárias veiculadas nos jornais. Há ainda quem defenda que se trata do próprio Novo Jornalismo – um gênero posterior ao Jornalismo Literário - e, por fim, há teóricos que o consideram somente presente nas biografias, nos romances-reportagens e na ficção-jornalística. Para estudo, o pesquisador Felipe Pena compreende todas as definições citadas como subgêneros do Jornalismo Literário e acrescenta: “acredito que o conceito está fundamentalmente ligado a uma questão lingüística” (PENA, 2006, p. 21). Pensando em exemplificar o conceito, Pena traz sete princípios básicos que cabe ao jornalista Literário: a) Potencializar os recursos do jornalismo. b) Ultrapassar os limites dos acontecimentos cotidianos. c) Proporcionar visões amplas da realidade. d) Exercer plenamente a cidadania. e) Romper as correntes burocráticas do lead (Walter Lippman, autor de “Public Opinion” (1922), diz que o lead traz certa cientificidade à notícia, sem brechas para subjetividade. Para isso seria necessário no primeiro parágrafo da notícia responder as questões: Quem? O quê? Como? Onde? Quando? Por quê? A fórmula realmente tornou a imprensa mais ágil e menos prolixa, embora a subjetividade não tenha diminuído. A opinião ostensiva foi apenas substituída por aspas previamente definidas e dissimuladas no interior da fórmula. Para a socióloga Gaye Tuchman, por exemplo, a objetividade nada mais é do que um ritual de autoproteção dos jornalistas. E a pasteurização dos textos é nítida. Falta criatividade, elegância e estilo (PENA, 2006, p. 15). Diante de tal quadro, se faz necessária a quebra dessa padronização em prol de um texto mais rico em estilo e informação). f) Evitar os definidores primários (prefeitos, vereadores, ministros…). g) Garantir perenidade e profundidade aos relatos. “No dia seguinte, o texto deve servir para algo mais do que simplesmente embrulhar o peixe na feira” (PENA, 2006, p. 13). A jornalista Fernanda Paola, da revista Cult, lembra que a percepção, a construção cena a cena, a reprodução de diálogos, os gestos, os hábitos, os modos, as roupas, as expressões faciais e o comportamento do personagem são fundamentais para o texto jornalístico-literário. Quanto mais detalhes, mais rico é o produto final. O processo de apuração das informações, nesse caso, obviamente é mais trabalhoso e demorado (CULT, Ano 8, n.º 93, p. 11). Edvaldo Pereira Lima em seu artigo “Jornalismo Literário no cinema” , diz que “Jornalismo Literário que se preza envolve a imersão do repórter na realidade que deseja retratar, a exatidão no relato do acontecimento e situações, a leitura simbólica do mundo que observa, estilo, uma voz narrativa distinta e às vezes digressões que abram uma reflexão profunda sobre o tema subjacente à narrativa. Busca unir a compressão racional do mundo com o entendimento intuitivo, passando pela leitura sensível de pessoas, ações, cenários e contextos. Une razão e lógica, integra as esferas objetiva e subjetiva que constituem a realidade integrada”. Na parte III: Novo Jornalismo e os gêneros no documentário brasileiro.

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ANDERSON ANTIKIEVICZ COSTA
040 - to7thart@gmail.com 

CINEMA E JORNALISMO I
Hoje, na coluna de número 40 (Óóóoohh), inicio mais uma discussão teórica. Dessa vez, trata-se de uma análise da relação existente entre Cinema e Jornalismo. Não tenho idéia de quantas colunas irá render, então… O assunto é de fácil compreensão e a linguagem utilizada no artigo é simples e objetiva; de qualquer forma, deixo aqui um referencial básico àqueles que quiserem se aprofundar no tema. Para a parte teórica e histórica do Jornalismo Literário e da vertente Novo Jornalismo, recomendo alguns livros, sendo que o primeiro deles é essencial: o clássico “Radical Chique e o Novo Jornalismo”, de Tom Wolfe, que foi quem escreveu o manifesto do New Journalism; o recente “Jornalismo Literário”, do brasileiro Felipe Pena - um livro para iniciantes que traz um bom recorte histórico e técnico –; e, aos aficionados, o obrigatório “A Sangue Frio”, de Truman Capote, que foi responsável pelo ‘boom’ do Novo Jornalismo. Na parte cinematográfica, o filme base é “A Sangue Frio”, de 1967; adaptação do livro de Capote feita por Richard Brooks, que analisaremos mais tarde. Como complemento, o premiado “Capote”, de 2005, dirigido por Bennett Miller, com Philip Seymour Hoffman, e “Infamous”, 2006, de Douglas McGrath. Ambos remontam o processo de apuração do livro “A Sangue Frio”, tendo como figura principal, evidentemente, Capote. No decorrer da discussão, outros livros e filmes serão indicados. Se você não estiver a fim de ler nenhum desses livros e nem tem verba ou paciência para ir atrás dos filmes, relaxa e boa Leitura. Tá fácil. 

Abertura
“Análise da abordagem cinematográfica do Novo Jornalismo no filme ‘A Sangue Frio’, de Richard Brooks, a partir da obra homônima de Truman Capote”, por Anderson Antikievicz Costa e Jacidio Junior, sob a orientação de Luis Carlos Sonda. Este artigo tem por objetivo analisar as relações existentes entre o Jornalismo Literário, em especial sua vertente norte-americana, o Novo Jornalismo, e o cinema, bem como, verificar como a obra literária “A Sangue Frio”, de Capote, expoente e propulsor do Novo Jornalismo, foi adaptada para o cinema, no sentido de constatar se teria sido escolhido somente pela história que carrega ou se houve alguma preocupação por parte do diretor com a manutenção das características jornalísticas do gênero.  

Introdução
O que o cinema e a literatura têm em comum? É sabido que há muito a literatura vira cinema e vice-versa. Uma boa história contada em páginas muitas vezes foi recontada por diretores da sétima arte. Existe uma relação intrínseca que remonta décadas da evolução desses dois meios de expressão cultural. E o jornalismo também vira literatura quando os mais sagazes repórteres buscam contar boas histórias por meio da narrativa literária. Os jornalistas buscam transformar a notícia factual, crua, padronizada e hermética, em livros com histórias reais dignas da literatura. Essa transposição das páginas dos jornais para os livros, constitui as premissas do Jornalismo Literário e conseqüentemente do Novo Jornalismo. O que nos leva a outra pergunta: diante do fato de que muitas obras do Jornalismo Literário foram adaptadas para o cinema, em curtas e longas-metragens, será que essas teriam sido feitas somente pelas histórias que carregam ou também houve uma preocupação quanto à utilização das características desses peculiares gêneros jornalísticos? A fim de discutir essas relações, recorremos à história do Jornalismo Literário e da vertente Novo Jornalismo e em seguida, à análise feita pelo autor Edvaldo Pereira Lima sobre a utilização do Jornalismo Literário no documentário brasileiro; por fim, aplicaremos o estudo ao cinema ficcional. Na próxima coluna: Jornalismo Literário e o Novo Jornalismo. 

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ANDERSON ANTIKIEVICZ COSTA
039 - to7thart@gmail.com

CICLO EXPRESSIONISMO ALEMÃO
O Sesc CineClube Silenzio ainda não retomou as atividades em 2008. Enquanto são preparadas mudanças e novidades, o CineClube promove o 3º Ciclo de Filmes – o 1º de 2008 -, de 21 a 25 deste mês. Depois do Cinema Brasileiro e das obras raras e marcantes do diretor italiano Federico Fellini, é a vez do Expressionismo Alemão, escolhido por votação no Blog do Silenzio. As sessões começam às 20 horas, no Sesc de Cascavel. Dia 21
“O Golem” (Der Golem, 1920, 91min, P&B Mudo), dirigido por Paul Wegener. Ambientado em Praga, século XVI, onde uma pequena vila de judeus é posta em cheque pelo kaiser. Para defender a cidade, o velho cientista Rabbi Lowe se volta aos antigos recursos alquimistas para criar o Golem, um ser de cera de enorme porte e força. À princípio, a criatura apenas obedece seu mestre, mas, à medida em que o tempo passa, ele passa a ter consciência da própria existência, e decide tomar os rumos de suas ações. 

Dia 22
“O Gabinete do Doutor Caligari” (Kabinett des Dr. Caligari, 1919, 71min P&B Mudo), dirigido por Robert Wiene. Clássico do terror. O malvado Dr. Caligari hipnotiza um jovem e o induz a matar várias pessoas. Tudo se complica quando ele se recusa a assassinar uma bela jovem. Num toque de mestre, Wiene realiza um filme sob a ótica de um louco: daí as distorções e deformações das ruas, casas e pessoas. Privilegia-se estranhos efeitos de luz e sombra na composição de climas psicológicos, alem de usar cenários e ângulos de câmera distorcidos. O prólogo e o epílogo não existiam na versão original, que pretendia ser um ataque a autoridade social. A remontagem imposta pelos produtores alterou o significado do filme, fazendo com que a ação passasse a representar o delírio de um louco, mas isso não afetou sua qualidade cinematográfica. Ao contrário, contribuiu para tornar a trama ainda mais intrigante. Os cenários, criados em pedaços de madeira e pano pelos pintores expressionistas Walter Reimann e Walter Rohrig e pelo cenógrafo Hermann Warm, ainda existem e fazem parte do acervo do Museu do Cinema Henri Langlois, em Paris. Fritz Lang colaborou no roteiro.

Dia 23
“A Última Gargalhada” (Letzte Mann, Der 1924, 77min. P&B Mudo), dirigido por F.W. Murnau. Um velho porteiro de um hotel de classe se vê sendo substituído por um empregado mais jovem, e posto para trabalhar como ajudante de lavatório. Sendo seu emprego de porteiro o maior orgulho de sua vida, e agora ridicularizado por seus vizinhos e amigos, o velho homem volta ao hotel à noite, em busca de seu antigo uniforme, símbolo de sua glória passada. 

Dia 24/01
“M, O Vampiro de Dusseldorf” (M, 1931, 111min. P&B Sonoro), dirigido por Fritz Lang. Um serial killer assusta a cidade alemã de Dusseldorf, matando crianças indefesas. Escapa da polícia, mas não das mãos de organizações criminosas pertencentes ao submundo local, que o pegam e o julgam com suas próprias leis numa velha fábrica abandonada. O ator Peter Lorre, com um desempenho excepcional, celebrizou-se por este papel. É o primeiro filme falado do diretor alemão Fritz Lang, que dois anos depois se mudaria para os Estados Unidos. É uma das cenas mais memoráveis da história do cinema, em que os próprios criminosos fazem justiça - para escapar da justiça real. 

Dia 25
“Nosferatu” (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922, 94min. P&B Mudo), dirigido por F.W. Murnau. Nosferatu é uma espécie de adaptação não-autorizada do romance Drácula, de Bram Stoker. Todos os principais elementos e estrutura linear da história foram mantidos, mas aqui Drácula chama-se Orlok. O filme é possivelmente o principal representante do movimento cinematográfico conhecido como Expressionismo Alemão, e influencia inúmeros diretores até os dias atuais, com seu jogo de luz e sombra.

 *Reviews completos disponíveis no blog do CineClube.

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ANDERSON ANTIKIEVICZ COSTA
038 -
to7thart@gmail.com

O QUE NÃO PERDER
Não foi um ano espetacular. Em 2007, não tivemos um “O Senhor dos Anéis”, mas um muito interessante “A Conquista da Honra”, de Clint Eastwood; também foi nos poupado descartáveis como “Menina Má.com”, apesar do questionável “Tropa de Elite”, de José Padilha. É certo, entretanto, que o saldo foi positivo e a expectativa para a safra de 2008 é impar. Débora Miranda, da agência G1, fez a relação dos 30 principais lançamentos de 2008. Mais da metade dificilmente chegará aos cinemas cascavelenses e as videolocadoras locais; então, selecionei entre esses os que possivelmente darão as caras nessa terra longínqua, culturalmente falando.
 
 

Indiana Jones, de Spielberg
Ver Harrison Ford interpretando o ‘senhor aventura’, Indiana Jones, 19 anos depois do último filme vai ser, no mínimo, interessante. Projeto antigo de George Lucas e Steven Spielberg que deve estrear nos cinemas dia 22 de maio. 

Rambo, de Stallone
Clássico da Temperatura Máxima que permeou muita adolescência. Filme que deve ser tosco até o talo, como o último “Rocky”, mas é a oportunidade rara dessa geração ver o herói no cinema. Sylvester Stallone assina a direção e o roteiro e ainda volta a protagonizar a série 20 anos depois do último filme. Estréia no dia 1º de fevereiro. 

A Prova de Morte, de Tarantino
O sempre sanguinário Quentin Tarantino faz uma homenagem rasgada ao cinema trash da década de 1970. “A Prova de Morte” é a parte que lhe cabe no projeto “Grindhouse”, o qual assina com Robert Rodrigues. Cinema tarantiniano da melhor qualidade.

Cegueira, de Meirelles
O brasileiro Fernando Meirelles dá um passo decisivo na sua carreira internacional adaptando o marco da literatura mundial “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago. No elenco, Juliane Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover e Gael Garcia Bernal. Estréia em outubro. 

Elizabeth, de Kapur
Tem tudo para ser o épico do ano, com a talentosa Cate Blanchett interpretando a rainha Elizabeth I, além de Clive Owen como o explorador Walter Raleigh e o talentosíssimo Geoffrey Rush. “Elizabeth – A era de ouro” estréia dia 15 de fevereiro.

Sweeney Todd, de Burton
No dia 8 de fevereiro deve chegar aos cinemas mais um do maluco Tim Burton. Dessa vez, ele traz a adaptação de uma peça da Brodway: “Sweeney Todd – O barbeiro demoníaco da rua Fleet”, que conta a história de Benjamin Barker e sua maléfica barbearia em Londres. O parceiro e pau para toda obra Johnny Depp, protagoniza ao lado de Helena Bohnam Carter. 

Cloverfield, de Reeves
Com um dos trailers mais simples e criativos de 2007, “Cloverfield – O Monstro”, de Matt Reeves, tem chamado a atenção de tudo que é fã de filme de terror. Estréia no dia 8 de fevereiro. 

Batman, de Nolan
Christopher Nolan nos apresenta “Batman – The dark knight”, com Christian Bale interpretando mais uma vez o herói, Michael Cane como o Comissário Gordon e Heath Ledger na pele do Coringa. Previsão de estréia: 18 de julho. 

O Gângster, de Scott
Com três indicações ao Globo de Ouro, “O Gângster”, do renomado diretor Ridley Scott deve chegar aos cinemas no dia 25 de janeiro. Denzel Washington e Russel Crowe contam a história de um policial que tenta acabar com Frank Lucas, poderoso traficante americano dos anos 70. 

Outros: “Eu sou a lenda”, de Francis Lawrence, com Will Smith; “The Changeling”, de Clint Eastwood, com Angelina Jolie; “Bond 22”, com Daniel Craig;  “O caçador de Pipas”, de Marc Forster; “Cassandra’s Dream”, de Woody Allen, com Ewan McGregor e Colin Farrel; “Senhores do Crime”, de David Cronenberg, com Viggo Mortensen e Naomi Watts; “Desejo e Reparação”, de Joe Wright, com Keira Knightley.

O ano é de promessas. O jeito, agora, é esperar e conferi-las nas telonas. 

FIM >>>>>

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ANDERSON ANTIKIEVICZ COSTA
037 - to7thart@gmail.com

CRÔNICA DO CASUAL
Não se pode chamar de “encontro”. Foi mais uma saída casual entreamigos. Eu a conheço a mais de dez anos por causa de nossos pais -colegas de hobby –, mas nunca havíamos saído juntos, nem sequerconversado pessoalmente depois de que nos “conhecemos por gente”,apenas parceiros de futebol nos idos dos oito ou nove anos de idade.Depois desse hiato de década, graças à tecnologia, tivemos nossaprimeira conversa, tímida, pelo Messenger, que depois de algumassemanas evoluiu para uma amizade sincera. Foi aí que disparei oconvite para o cinema, felizmente aceito. Chegamos adiantados 20minutos. Nenhum outro motivo, mero ocorrido que serviu de tempo paramemorar casos de família… tendo no canto dos olhos de ambos otrailer instigador de “Eu sou a lenda”, com Will Smith; e o criativode ” Cloverfield”, até que “30 Dias de Noite” surge e pauta o novoritmo da conversa. 

Sempre os clássicos…
A inexistência de um interessante cinema de horror que permeia osúltimos anos foi o tom das frases que se seguiram. Os clássicos óbviossurgiram saudosos nas palavras de um desiludido… Imensuráveis eresistentes escolas que parecem tanto ignoradas, esquecidas…Lembremos de “O Bebê de Rosemary”, de Polanski: caracterizado pelacrítica como um suspense e, ao qual, credito uma mescla perfeita com oterror. Os lentos e detalhados minutos constroem, a partir dosuspense, o corpo realista do demoníaco. Não nos assustamos comgritos, mas berramos ao nosso interior o medo do sobrenatural. Filmeque nos faz olhar de canto para os cantos escuros, para debaixo dacama, pela fresta da porta; que nos intriga e nos instala o talvezabsurdo pensamento: “Não estaria num berço comum o filho do demônio?”.Lembremos de “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, que nos imerge pouco apouco numa redoma de pavor, toma o medo os nossos olhos e nossocoração aos gemidos do possuído Jack Torrance. Lembremos de “OExorcista”, de William Friedkin, com o qual nos chocamos com o feio,com a possibilidade do real e com o pensamento pedrificador de sermoscegos à busca do causador do sofrimento… 

Salvo raras exceções…
…, os atuais filmes de terror se prendem à fórmula do susto pelasaparições surpresa, regadas ao aumentar grotesco do volume. Soma-se a“30 dias de Noite” a estrutura meramente comercial - mocinho emocinha, final feliz, dramaturgia superficial - . O aspecto técnicosobrepõe-se ao conteúdo gerando um monstrengo desprezível… Creio quea chave da discussão – e alguma área da psicologia, creio eu, podemelhor compreender – é o fato de o ser humano ter mais medo daquiloque ele não vê (os bons de terror…). Em “30 Dias de Noite”, bem comonos demais da nova safra, vemos o que causa o horror, o que e como eleo gera, quais são seus passos… assim, não nos permitimos assustar(assunto para outra conversa). É certo que não se é justo ao compararclássicos absolutos com um filme que não almeja tal envergadura. Tomeiapenas como oportunidade para tornar pública a decepção com o esseatual respirar do cinema de terror acessível. 

Enfim…Quase duas horas depois, deixamos a sala de cinema com o pensamento deque o filme teve seus momentos, mas deixou muito… muito a desejar…a criatividade passou longe… “Nada melhor para marcar esse momentoamigo do que um filme “calmo”, cheio de sangue, corpos dilacerados,gritos… Com certeza, inesquecível”. E saber que foi algopremeditado: desejo dos gostos comuns na ponta dos dedos sobre aprogramação do cinema imprensa no jornal. No fim das contas, maisinteressante foi a discussão, que se iniciou ainda nos degraus dasaída, sobre a fome e a vontade de um simples cachorro-quente… 

FIM

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ANDERSON ANTIKIEVICZ COSTA -

036 - to7thart@gmail.com

 

BÚSSOLA DE OURO

Tem publicidade de épico, trailer de épico, elenco de épico, produtora de épico, mas não é. A fórmula para se fazer um épico e ao mesmo tempo um grande sucesso do cinema industrial é bastante complexa. Mas a New Line tentou repetir a dose de “O Senhor dos Anéis” e traz aos cinemas “A Bússola de Ouro”… sem muito sucesso. É mais uma aventura para crianças, com toneladas de efeitos especiais, pouca dramaturgia e um roteiro questionável.

 

A história

Em um mundo em que todas as pessoas possuem um ‘daemon’, a manifestação da própria alma em forma de animal, vive a jovem Lyra Belacqua (Dakota Blue Richards). Órfã, reside na Universidade onde foi deixada, sob os olhares atentos do reitor e do misterioso Lord Asriel (Daniel Craig), até que, parte numa viagem com a também misteriosa Sra. Coulter (Nicole Kidman). A partir daí, começa a saga de Lyra para resgatar o melhor amigo e outras crianças raptadas. Também irá atrás de Asriel, que foi para o Norte em busca de passagens para outros mundos e acesso a uma substância mágica com o simples nome de Pó. Para a viagem, Lyra recebe escondida do reitor, uma Bússola, que, somente a ela, diz toda a verdade e as respostas de que precisa, dom que envolve uma profecia.  A Bússola e o pó representam o maligno pela autoridade ‘Magisterium’, também responsável pela ‘polêmica’. Na trilogia “Fronteiras do Universo”, de Philip Pullman, na qual foi baseado o filme, o ‘Magisterium’ é uma poderosa igreja, que “pretende controlar e cercear o livre pensamento dos habitantes de um mundo paralelo” (Cariello). Já no filme, é desprovido de qualquer caráter religioso, transparecendo aspectos de “governo laico e totalitário”. De qualquer forma, respingou no Vaticano, que até comemorou a ‘baixa’ bilheteria no primeiro fim de semana no EUA – US$ 25 milhões.

 

Problemas básicos

De fato, é um enredo digno de épico, carregado de mitologia, magia… Mas “A Bússola de Ouro” não consegue destrinchar toda essa história tal como sua proposta exige. E são dois os principais problemas. O primeiro deles é o roteiro. É normal, em qualquer filme, que os personagens tenham falas explicativas, que ditem o rumo da história, localizem o espectador. O bom roteiro se utiliza dessa e, principalmente, de outras formas, como as imagens, a trilha sonora, o silêncio para nortear na trama. Em “A Bússola de Ouro”, porém, isso se concentra demasiadamente nas falas… tanto que beira o clichê. Os personagens a cada pouco falam sobre o próximo passo e o espectador recebe tudo de bandeja, não precisa se esforçar ou ao menos prestar muita atenção para compreender o desdobrar. O que reforça a idéia de que volta-se para o mesmo público foco de “As crônicas de Narnia”, que, aliás, não tem esse problema de trama. Para se prestar a um épico, “A Bússola de Ouro” deve muito ainda a outro quesito essencial: a construção minuciosa dos personagens. Falando da New Line Cinema, lembre-se de como são apresentados em “O Senhor dos Anéis”: conhecemos o perfil comportamental, a origem familiar, as motivações e os objetivos de cada um… o que não acontece aqui, os personagens são apenas rabiscados, não possuem gênese e essa superficialidade reflete na trama, que perde a carga dramática e se torna vazia, refém de momentos esparsos.

 

Sensação

Mas, o que vale mesmo é a sensação ao sair da sala de cinema, e ela é de um bom filme. Pelo conjunto da obra e observando o produto e não a embalagem, a obra deixa “As crônicas de Narnia” no chinelo. Para todas as idades, em especial para as crianças, até por que em Cascavel a cópia é dublada – diga-se que o dublador fala algumas vezes Lyla ao invés de Lyra -. Destaque para a cena da briga entre dois ursos polares e também a batalha próxima ao fim do filme. Nota 7.

 

FIM

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ANDERSON ANTIKIEVICZ COSTA -

035 - to7thart@gmail.com

 

Caro Papai Noel

Não que eu tenha sido um sinônimo de bom comportamento… nada assim ‘nossa, que exemplo!’, mas também não fui um caminhão na ribanceira. Diria que passei com recuperação… mas passei! Sendo assim, nada mais justo do que também pedir os meus presentes, né não? Noel, meu amigo, a lista é meio grande, por isso não tem problema caso alguns presentes eu receba fora de época.

 

Lá vai

Que o Rambo 2008 seja tão interessante quanto o trailer; que o Bruce Willis faça um novo Duro de Matar; que o Eddie Murphy assuma a filha da Spice Girl; que a menininha do “Pequena Miss Sunshine” não grite de novo; que os lançamentos cheguem mais rápido aos cinemas de Cascavel – que o preço da pipoca e da Coca-Cola caiam –; que o preço da locação caia; que o Brasil ganhe pelo menos um Oscar de Filme Estrangeiro; que David Lynch continue louco – o Jack Nicholson também; que a Angelina Jolie esteja aberta a novas opções; que o Tarantino filme um sci-fi; que o Coppola grave um western; que o Woody Allen aprenda a atuar; que “A Lagoa Azul” passe somente uma vez por ano na TV; que o Bush chore no “Crash” (sem trocadilhos); que ninguém discuta com o Capitão Nascimento; que o Scorsese lembre que foi ele quem fez “Cassino”; que o Tim Burton conheça o pente de cabelo; que compreendamos “2001: Uma Odisséia no Espaço”; …é, por hoje é só. Abraços.

 

 

Grindhouse

Imagino facilmente Quentin Tarantino e Robert Rodriguez num domingo, sentados largados num sofá gigantesco, assistindo a um canal qualquer, talvez um programa besta de perguntas e respostas, enquanto falam bobagens que evoluem gradativamente conforme as garrafas de cerveja se esvaziam. Deve ter sido no auge desse encontro memorável, que surgiram idéias como uma bela modelo com uma metralhadora como perna… pois é, assim ela e o Grindhouse devem ter surgido. Trata-se dessa dupla dinâmica fazendo uma rasgada homenagem ao cinema trash dos anos 70 e ‘pra lá’ de pesada. Desde as cenas ‘obrigatórias’, com litros de sangue falso jorrando de braços e cabeças destruídas, até as vestimentas, o modo ‘sujo’ de filmar… enfim, prato cheio até demais.

 

Tarantino

A obra de Tarantino é a mais interessante. O “Death Proof” traz Rosario Dawson, Rose McGowan e ressuscita, assim como fez com John Travolta, Samuel L. Jackson e Uma Thurman, o jurássico Kurt Russel numa atuação bem legal. Russel interpreta um dublê assassino que procura vítimas no interior dos Estados Unidos, a bordo de um carro ‘à prova de morte’. Está lá o jeito “tarantiniano” de ser, nas músicas, nos diálogos inteligentes e longos, nas cores, na quantidade de sangue, no sensacional… Destaque para a cena da perseguição, simplesmente histórica.

 

Planet Terror

O “Planet Terror” de Robert Rodriguez não é ruim, mas com certeza não é tão legal como o de Tarantino. Pensando melhor melhor, não cabem comparações aqui e não é somente por uma questão de “escola”. O que se pode dizer, com certeza, é que faltava esse terror trash a seu currículo eclético em que estão o brilhante “Sin City”, o comercial “Pequenos Espiões 3D”, o questionável “As aventuras de Sharkboy e Lavagirl”, o bem humorado “Era uma vez no México”… E aqui está um filme de zumbis com todos os exageros possíveis e imagináveis levados por Bruce Willis, Rose McGowan,  Naveen Andrews – o “Sayid” de Lost –, Michael Biehn – de “O Exterminador do Futuro” – … Sobra até para o Tarantino, que protagoniza uma das cenas mais engraçadas. O destaque fica para a bizarra modelo e sua perna metralhadora, e a maravilhosa trilha-sonora assinada pelo próprio Rodriguez, que mescla música latina com guitarras pesadas. Para quem quiser um natal um pouco mais… denso, fica aí a indicação.

 

FIM

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ANDERSON ANTIKIEVICZ COSTA -

034 - to7thart@gmail.com

 

C. U. I. C. A.

Depois de algumas semanas calcadas em teoria e história do cinema, vamos a algumas notícias. A Cuica (Companhia Ubiratanense Independente de Cinema Amador) está na fase final de gravação de sua segunda produção. O média-metragem “Tenente Marcondes”, a exemplo do primeiro trabalho, “Germano Teixeira”, é um drama familiar que se passa no tempo atual. Vale lembrar: ambos os filmes não possuem orçamento e nem patrocínio; tudo feito na garra e na vontade. O média “Germano Teixeira” é bem legal, e está disponível na íntegra no endereço eletrônico http://video.google.com.

 

Cine Silenzio

Para fechar o ano de 2007, o Sesc CineClube Silenzio promoveu de 10 a 14 de dezembro, no Sesc de Cascavel, o 2º Ciclo de Filmes. A cada dia dessa semana, os participantes assistiram, sempre a partir das 20 horas, às principais e raras obras do consagrado diretor italiano Federico Fellini. Foram exibidos “I Clowns” (1971), “A estrada da vida” (1954), “8 ½” (1963), “Satyricon” (1969) e “E La Nave Va” (1983). O primeiro ciclo foi de Cinema Brasileiro, e realizado no fim do primeiro semestre. Para janeiro de 2008, dois outros ciclos estão programados: um de Cinema Latino e outro do Expressionismo Alemão, movimento artístico e cinematográfico cuja discussão foi esboçada nessa coluna nas últimas duas semanas. Além disso, haverá o re-lançamento do CineClube, com novidades; uma delas é a retomada das discussões no fim das sessões.

 

Batismo de Sangue

A secretaria de Cultura de Cascavel em parceria com o CineClube Araguaia exibiu na sala de vídeo de Biblioteca Municipal, “Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratton. O drama de 110 minutos é baseado na obra homônima de Frei Beto e distribuído pelo projeto Cine Cuca da UNE (União Nacional de Estudantes). O filme remonta São Paulo no fim da década de 1960 nas mãos da sempre lembrada Ditadura Militar, o que rendeu ao filme críticas duras. “Mais um… não bastava ‘1974’, ‘O ano em que meus pais saíram de férias’, ‘Zuzu Angel’…”, disseram os críticos. Um grupo de frades dominicanos resolve ajudar na luta clandestina contra a ditadura militar, que prendia, torturava e matava os insatisfeitos. Gosto das palavras de Gustavo Catão sobre: “A motivação dos quatro jovens é vazia, representada por uma propaganda comunista clichê e um discurso de liberdade tremendamente estereotipado. Tem-se a clara impressão de que as personagens vivem uma vida idílica, discutindo filosofias utópicas, até que a maléfica polícia os rapta no meio da noite. Esta, por sua vez, encarna o arquétipo do vilão e aparece exclusivamente para espancar e torturar as personagens. As cenas explícitas de tortura preenchem então boa parte da produção…”. O filme não deixa de ser interessante, mas o que me entusiasma é a parceria entre o Araguaia e a secretaria: tem tudo para engrenar e render ótimos frutos, como esse encontro.

 

No cinema…

…a novidade é “A lenda de Beowulf”, adaptação do poema épico do século VIII, considerado o trabalho literário mais antigo da língua inglesa (gracias, meu amigo letrado Darci Ribeiro). Apesar de não termos em Cascavel a versão 3D, o filme bidimensional é ‘pra lá’ de interessante. O diretor Robert Zemeckis (Oscar por “Forrest Gump”) utiliza a técnica de captura de performances (“Expresso Polar”, de 2004), na qual os atores usam roupas colantes cheias de sensores que captam as interpretações e mais tarde as combinam com a animação digital. Com Anthony Hopkins, Angelina Jolie, John Malkovich e Ray Winstone. A adaptação demorou dez anos para ficar pronta e foi feita pelo quadrinista Neil Gaiman (“Sandman”) e pelo co-roteirista de “Pulp fiction”, Roger Avary.

 

FIM

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ANDERSON ANTIKIEVICZ COSTA -

033 - to7thart@gmail.com

 

EXPRESSIONISMO II

Na coluna anterior falei sobre as raízes e as características do Expressionismo alemão, não só como movimento artístico iniciado no fim do século XIX, como também primeiro movimento cinematográfico organizado da história do cinema. Vimos que o objetivo do expressionista não é retratar o real, mas recriá-lo a partir do mundo interior do indivíduo, valorando o subjetivo para a expressão de sentimentos emocionais e mentais; se interessa pelo abstrato, pela recriação simbólica do mundo a partir de aspectos interiores. Falamos também sobre uma das principais obras desse movimento, “O Gabinete do Dr. Caligari”, dirigido por Robert Wiene, em 1920. Hoje dou continuidade ao assunto indicando outros filmes essenciais desse período.

 

Lang

O alemão Frtiz Lang é uma figura ímpar na história do cinema. Perpassando por vários períodos, escolas e estilos, deixou em cada um deles uma marca da sua genialidade. Sua obra-prima enquanto expressionista também é um marco na produção de ficção científica. “Metrópolis” (1927), um dos mais belos retratos das características do movimento, traz uma visão aterradora do mundo no ano de 2026. Muitos críticos dizem que esse filme ditou a linguagem e a estética de todos os filmes sobre o futuro feitos até hoje. A história traz a cruel relação entre empregados e patrões, e tem como ponto principal a criação de uma máquina, de um robô, para desmobilizar os trabalhadores revoltosos. Como pano de fundo, uma cidade inspirada em Nova York. Podemos notar a influência direta de “Metrópolis” no cult “Blade Runner” (1982) e também no film noir norte-americano da década de 1940, em especial quando se fala sobre a utilização de sombras, contraste e fotografia. O próprio Lang fez film noir.

 

Murnau

F. W. Murnau tem de obrigatoriamente figurar na lista dos mais importantes expressionistas. “Nosferatu” (1922) é entre sua filmografia o de maior carga expressionista, e, com “O gabinete do dr. Caligari”, é uma das mais sombrias produções do período. Mesmo sendo uma adaptação não autorizada, é a mais apavorante do Drácula de Bram Stoker. O filme chama atenção pela genial composição cenográfica, pela utilização de sombras e luzes, e da fotografia que criam um clima aterrador, amedrontador. O espectador se vê em meio a uma eterna apreensão fugidia da peste, da morte. Em 1925, Murnau fez “A Última Gargalhada”, no qual retrata a história de um porteiro após perder o emprego. Uma obra de cunho humano-social em que Murnau se vale de aspectos do expressionismo, principalmente na interpretação dos atores e na construção tortuosa dos ambientes, cenários e enquadramentos, com o objetivo de construir a atmosfera angustiante em que está imerso o personagem. Não é um filme legitimamente expressionista. Murnau concilia técnicas expressionistas com a Kammerspiel – a câmera espelho –, concepção que se preocupa em retratar com mais fidelidade o real, sem a atenção expressionista nessa reconstrução. Em 1927, Murnau nos entrega “Aurora”, considerado entre seus filmes o que contém menor influência desse movimento alemão, mas ela é notável nas atuações carregadas e exageradas que visam construir o mundo psicológico dos personagens. As imagens transparecem força simbólica e poética, e a tragédia e o romance se entrelaçam de forma singular.

 

Mais

Fica ainda a indicação de “O Golem” (1915), de Paul Wegener e Henrik Gallem, considerado o ponta-pé inicial do Expressionismo. Também há “O gabinete das figuras de cera” e o “O homem que ri”, de Paul Leni. A força do Expressionismo chegou a se infiltrar nos filmes sonoros alemães até o início da década de 1930, mas a chegada de Adolf Hitler ao poder pôs fim ao movimento.

 

FIM

>> Versão on-line da coluna sobre cinema da GAZETA DO PARANÁ <<

 

ANDERSON ANTIKIEVICZ COSTA -

032 - to7thart@gmail.com

 

EXPRESSIONISMO I

O expressionismo alemão é um movimento artístico iniciado no fim do século XIX. Na literatura e na pintura, atingiu seu ápice entre 1910 e 1920, e no cinema, no fim da década seguinte – 1920 –. O objetivo do expressionista não é retratar o real, mas recriá-lo a partir do mundo interior do indivíduo, valorando o subjetivo para a expressão de sentimentos emocionais e mentais; se interessa pelo abstrato, pela recriação simbólica do mundo a partir de aspectos interiores. Por exemplo, a tela “O grito”, de Edvard Munch, é a obra mais importante do expressionismo na pintura. Lá está a expressão humana psiquicamente desajustada numa convulsão angustiante. “Munch não quer representar o objeto do real, mas sim exprimir o mundo subjetivo do indivíduo através de linhas tortas, de uma paisagem e de uma figura humana contorcida como sua alma revolta, inquieta, cheia de dúvidas e incertezas”, caracteriza o crítico de cinema Rafael Ciccarini, que retoma as palavras poéticas de Munch: “Eu caminhava com dois amigos – o sol se pôs, o céu tornou-se vermelho-sangue – eu ressenti como que um sopro de melancolia. Parei, apoiei-me no muro, mortalmente fatigado; sobre a cidade e do fiorde, de um azul quase negro, planavam nuvens de sangue e línguas de fogo: meus amigos continuaram seu caminho – eu fiquei no lugar, tremendo de angústia. Parecia-me escutar o grito imenso, infinito, da natureza”.

 

Raízes

Entre 1914 e 1918, ocorreu a Primeira Grande Guerra. Nesse período, a Europa estava imersa no positivismo, na convicção de que o homem, ao negar as tradições, seguia por um caminho sem volta ao progresso por meio da ciência, do conhecimento científico. A crença maior era na razão científica como centro da civilização modernista. A verdade buscada na metafísica e na religião, naquele momento, passa a ser encontrada no conhecimento racional e sistemático do real. Porém, a violência que parecia ser levada pelo vento durante a Primeira Guerra significou um golpe feroz nesse positivismo, na certeza da Razão como precursora da emancipação do homem. E foi em meio a esse clima pessimista da Europa no período pós-Primeira Guerra Mundial, que surgiu o expressionismo alemão, retratando justamente esse indivíduo inseguro, incerto, cheio de dúvidas.

 

Dr. Caligari

O filme “O Gabinete do Dr. Caligari”, de 1920, dirigido por Robert Wiene, é considerado por muitos o maior expoente do expressionismo. De fato, está nos personagens, nos figurinos e nos cenários o clima desconexo, o obscuro, o tortuoso, a loucura, a perturbação… Os cenários foram criados e pintados em madeira e pano pelos pintores expressionistas Walter Reimann e Walter Rohrig e pelo cenógrafo Hermann Warm, e expressam a desordem, a tortura, o desproporcional, o inconcebível. O roteiro de Hans Janowitz e Carl Mayer – baseado na convivência de Mayer com os psiquiatras da Guerra – trata do psiquismo em temas como sonambulismo e hipnose, respingando no insondável, no terror, no não-dito (temáticas que permeavam o imaginário sombrio e pessimista do período). O forte contraste entre o claro e o escuro na fotografia remonta o tumulto interior dos personagens expressos em sombras e neblinas. O ator expressionista não se ata à realidade, à interpretação realista, mas recria e exprime o mundo interior do personagem, escancara seu universo subjetivo… Aqui não há um mundo real, mas sim um psíquico e mental de um indivíduo obscuro, incerto e perturbado… as perspectivas da loucura num clássico do terror e em um dos filmes mais importantes da história do cinema.

 

CONTINUA…